segunda-feira, 31 de agosto de 2015
MANIFESTO EM PROL DE UMA VERDADEIRA PÁTRIA EDUCADORA (1ª pessoa do singular ficcional)
Ninguém mais quer ser professor. Você entra em uma sala de aula e as respostas são sempre as mesmas: "eu quero ser médico ou engenheiro". Há os que se arriscam em cursar direito, psicologia ou arquitetura, mas ninguém se arrisca em ser professor. "O que? Ganhar um salário extremamente baixo e ter um ínfimo reconhecimento? Não, não. Eu não quero ser professor", diz 88% dos estudantes brasileiros. Eu, todavia, arrisquei-me: sou professor de literatura há 20 anos e há 20 anos sou negligenciado pelas políticas governamentais.
Nós, professores, que com um aparato adequado, um quadro, um giz e um diploma no bolso, educamos incontáveis indivíduos e formamos milhões de estudantes, não merecemos um salário baixo, nem o descaso do governo, tampouco o desrespeito de um aluno. Não merecemos também as balas de borracha que são atiradas contra nós. Que incoerência: saímos às ruas para lutar pela educação brasileira e somos duramente reprimidos por nossos policiais ex-alunos. Nós vamos exigir nossos direitos, sim! Nós vamos exigir a melhoria do sistema educacional, sim! Pois cabe a nós "a responsabilidade", como disse José Saramago, "de ter olhos quando os outros os perderam" e de formar uma sociedade mais humanitária.
É hora de os governantes - e toda a sociedade - lembrarem-se de quem os ensinou a ligar os pontos, a formar letras, palavras e a serem cidadãos. Deixemos de ter a falta de pronunciamento de Macabea, sejamos professores ativos. Nós educamos pessoas, nós formamos indivíduos e merecemos, portanto, respeito e direito de sermos ouvidos. Vamos sair às ruas para gritar, para exigir e para reivindicar a dignidade e a educação garantidas pelo artigo V da Constituição. Mas vamos fazer isso como bons mestres, bons professores. Sem quadro e sem giz, nós vamos ensinar nas ruas quem é a peça essencial da máquina chamada sociedade. Senhores governantes, sejam bons alunos, façam suas tarefas de casa e lembrem-se: ninguém mais quer ser professor. Quem vai educar seu filho? Quem vai educar seu neto? Quem vai educar sua nação?
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