Ontem mesmo eu vi
toda uma espécie caminhando
rumo ao orgasmo
da adrenalina.
Estavam todos despidos de racionalidade
e vestidos de ansiedade,
torcendo
para que o pequeno envoltório
que divide dois tecidos prazerosos
rompe-se!
Dava para ouvir,
do lado de fora,
os batimentos acelerados
e os gemidos
daqueles que estavam em cima do muro,
pendendo para o lado positivo desse ménage.
A música era alta,
o buffet era dos bons.
Era tanta gente pagando caro por um orgasmo....
Vai ver o vírus era importado.
Mesmo que fosse, quanto hedonismo!
E ainda falam que a humanidade caminha para a evolução.
Sentimentalismo (e outros "ismos")
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Barebacking
domingo, 27 de dezembro de 2015
No ponto de ônibus
Ontem, no ponto de ônibus, ouvi uma conversa entre uma jovem de uns 16 anos e um senhor de quase 80 anos, penso eu. Sei que é feio ouvir conversas alheias, mas era impossível não escutar a prosa entre duas gerações distintas. E foi uma prosa bonita. Bem bonita. Foi algo mais ou menos assim:
- Olá...
- Oi.
- Posso me sentar aqui? - Disse o senhor ao apontar para o assento vago que estava ao lado da garota.
- Pode.
Ele pegou um cigarro e logo puxou assunto.
- Qual o seu nome?
A jovem, marrenta, não o respondeu e manteve os olhos fixos ao chão.
- Tudo bem?
- Você não deveria falar com estranhos. - Disse a garota sem paciência.
- Pois bem... Estava tentando te conhecer.
O senhor ficou olhando-a fixadamente até que ela resistiu e soltou a prosa:
- Isabela. Meu nome é Isabela.
- Paulo. - Ele disse satisfeito.
- O próximo ônibus chega as onze, daqui uma hora... O que faz aqui? - Ela perguntou, envergonhada por tê-lo ignorado.
- Estou pensando.
- Na vida?
- No amor. - Ele disse com a mão no peito.
- Ah... O amor... - A garota revirou os olhos e cruzou as pernas. - Dói, não é mesmo?
- O amor?
- É... Isso. - Ela disse com desprezo.
- Não. Não dói, não.
- Diz isso porque nunca deve ter tido um amor não-correspondido.
- E como tive... Bela. - Disse aos suspiros. - Desculpe-me, posso te chamar assim?
- Pode.
- Amor não é sinônimo de dor. Amor é...
- Inexplicável? - Ele falou com entusiasmo.
- Isso mesmo. Amor é tudo, menos dor.
- Mas dói...
- Então não é amor.
- É o que, então?
- Dor.
- Dor? Simples assim? Se não é amor, é dor? Dor? - Ela questionou indignada pela simplicidade da reposta do senhor.
- Bela, eu demorei quase 30 anos para entender que o amor é simples e que não dói. Acredita em mim. - Ele levantou, enquanto falava, para acenar para o ônibus que estava chegando. - A gente é que costuma complicar e machucar em nome do amor. O amor em si não dói.
- Falar é fácil. - A jovem falou com a cara amarrada, como quem não estava satisfeita.
O ônibus pára.
- Bela, desamarra essa cara. Coloca um sorrio nesse seu rosto bonito, que o próximo ônibus vem vindo. - Ele disse enquanto subia no coletivo e concluiu:
- Quem sabe você não encontra o amor no próximo ônibus?
Ela desfez a cara de marrenta, mas não soltou nenhum sorriso. E o senhor, paciente, alertou novamente:
- Lembre-se: se doer não é amor. É dor.
A jovem suspirou fundo. Até hoje não sei se foi de alívio pelo velho senhor ter ido embora ou se foi por, enfim, ter entendido que o amor é simples e que não dói.
sábado, 26 de dezembro de 2015
Cueca PP
Vou acabar sozinha. Sim, é isso mesmo: vou ficar para titia! Para titia, para vovó... Para "whatever". Não vou me casar, nem me juntar a alguém pelo simples (e inaceitável) fato de que não existe homem. Não há homem neste mundo!
Exagerada, eu? Não, não. O que existe por aqui são moleques, meninos e pivetes, menos homem. Os homens com H sumiram! Se foram para Marte, eu não sei, mas, aqui, neste planeta, eles não estão. Até tem alguns indivíduos fortes, com barba e voz grossa perambulando por aí, contudo não fazem jus ao que é "ser homem".
Ser homem requer postura. Para ser homem com H é preciso saber a hora de encher a cara e de perder a linha. É preciso saber que a vida não se resume a mulheres nuas, festas e vídeo-games. É preciso saber (e se conformar) que o que acontece nos filmes pornôs dificilmente vai se repetir na vida real. É preciso respeitar as mulheres, não porque elas são o sexo frágil, muito pelo ao contrário. É preciso respeitá-las porque elas são mais homens que muito homem e também porque a Constituição garante a igualdade de gêneros.
E nessa história de respeitar mulher tem tanta coisa faltando! Cavalheirismo, romantismo, carisma... Deixa para lá, melhor nem citar. Não estou querendo nenhum homem perfeito, só um homem mesmo. O mínimo que deve existir, portanto, é respeito. Não precisa abrir a porta do carro, nem mandar flores no trabalho. Mas precisa oferecer carona e ajudar a arrumar o jardim, porque isso demonstra, além de respeito, sensibilidade.
E para ser homem de verdade é necessário muita responsabilidade e sensibilidade. Responsabilidade para lidar com a vida e sensibilidade para lidar com seres humanos. Brother, não adianta ter barba na cara e voz grossa, se a sua mentalidade é igual a de um garoto que acabou de descobrir a masturbação. O que faz de um indivíduo com pênis ser um homem vai muito além que pêlos no rosto e uma voz grave. Ser homem envolve ética e respeito. E isso, cueca nenhuma consegue comportar. Pelo menos não neste planeta.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Petróleo
O homem,
desde que é homem,
faz guerra.
Na antiguidade,
na idade média
e na moderna.
Guerra em nome da paz,
em prol do money,
em parceria com o sangue.
Primeira,
segunda...
Opa, vai com calma,
não engata a terceira.
Dá uma freiada,
dá uma esfriada.
O socialismo e o capitalismo
estão numa racha de mapa,
querem ultrapassar,
atropelar
e matar
a gente.
Que guerra feia!
Que guerra fria!
Mal acaba a corrida e já tem mais corpos na pista.
Vietnã, coitado,
teve seus filhos assassinados.
Pra que tanto tiro?
Pra que tanto sangue?
Pra que tanto choro?
Esse preço da paz tá errado.
Quantos juros,
quantos soldados,
quantos civis
dilacerados.
Não resta nada quando o último tiro é dado.
Tá tudo escuro.
Tá tudo preto.
Vai ver é luto...
Ou petróleo mesmo.
sábado, 19 de dezembro de 2015
Não sou para casar
"Eu sou para casar", digo sempre que algum conquistador barato tenta me levar para cama. Contudo, nunca pensei em me casar. O que eu quero dizer é: sou mulher para um só homem. Isso não necessariamente significa que eu queira subir no altar.
Não, não. Eu não quero uma aliança de ouro na minha mão esquerda. Sonho em encontrar a minha alma gêmea, mas não penso em algema-la a mim diante de um padre que nem sabe como nos conhecemos. Porque para mim casamento é isto - ou tudo isto: uma coisificação do amor. E o amor não é uma coisa.
Casamento. Essa é, sem dúvidas, a instituição na qual eu não quero fazer parte. Quero amar um único cara sem precisar de vestir algo branco. Quero dormir e acordar com a mesma pessoa sem precisar de fazer votos ou promessas. Quero beijar uma só boca sem precisar de alianças. Sou mulher de um só homem, mas não sou para casar.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Lata de sardinha
E o tempo passa. Passa mais ligeiro do que os ponteiros daquele relógio de pulso do seu avô, mais veloz do que o Cacá Bueno ou, até mesmo, do que o Ayrton Senna. A gente, porém, só nota essa velocidade do tempo quando já é tarde, quando o sol já se pôs, quando já é hora de dormir. Só quando os outdoors do centro da cidade estampam propagandas de natal é que a gente repara que nos esquecemos de muita coisa, como de ligar para aquela tia que mora no inteiror agradecendo a mensagem de aniversário que ela nos deixou no Facebook.
A gente se esquece de tanta coisa, de tantas pessoas... Às vezes, nos esquecemos para o bem, porque lembrar pode ser passagem para o voo da dor. E nesse avião ninguém quer embarcar. Mas, às vezes, nos esquecemos por descuido. A gente simplesmente se esquece. Se esquece de chorar, de rir, de gritar, de cantar, de amar... De viver. A culpa, contudo, não é nossa. Oras! Não há tempo sobrando.
Tempo: até parece o infinito apertado dentro de uma lata de sardinha em conserva. O muito no pouco ou o pouco no muito? Tanto faz. Tanto faz o tempo ser curto ou longo. Tanto faz, até o dia em que o "tempo" for vendido em cápsulas de rápida absorção. Por agora, temos que nos conformar com a latinha que recebemos e fazer do infinito que nos foi dado, o mais intenso possível. Sim, não temos todo tempo do mundo, porém, se serve de consolo, temos toda a sorte do universo. Sorte por ainda não ser tarde demais. O sol até se pôs, mas amanhã ele estará de volta. Ele estará de volta para nos lembrar que o tempo passa, quiçá, voa e para nos lembrar também que ainda dá tempo de despachar a nossa mala de esquecimento e embarcar no voo da recordação.
E, se a gente quiser, ainda dá para convencer o comandante de fazer uma rápida conexão em algum lugar para gritarmos o nosso amor por alguém. Não é uma questão de tempo, é uma questão de querer, de dar prioridade e de viver. Com uma lata de sardinha cheia de infinito dá para alimentar tanta coisa, tantas pessoas.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
A janela deveria ser maior
Eu nunca tinha entendido aquela agonia que as mulheres sentem aí esperar a ligação - ou até mesmo uma mera mensagem - daquele cara da noite anterior. Pelo amor de Deus, é só um homem! Oras, você pode ir a uma boate no sábado e encontrar outro homem pronto para suprir sua carência e te levar ao delírio depois de uma semana cheia de trabalho. Por que ficar pensando no rapaz que pegou o seu número depois de uma conversa, de um beijo ou de uma transa que seja? Eu nunca tinha entendido essa agonia de esperar um sinal de vida do "cara de ontem", até o dia em que anotei o meu número no celular de um rapaz de olhos claros, na sala de desembarque de um aeroporto. Aí, sim, senti na pele o que é ficar colada no celular.
Confesso que ainda não larguei o meu celular, que ainda o pego, com muita esperança, a cada vibrar e a cada barulho que ele faz. Mesmo após se terem passado 7 dias. Tanta esperança vem dos "talvez" que construo na minha mente vazia e, quiçá, ingênua. De fato, ele ainda não ligou... Mas, talvez, ele esteja ocupado com os amigos, até porque o motivo que levou ele a estar na mesma cidade que eu são quatro amigos. Ou quem sabe ele está tão deslumbrado com a calmaria que é essa cidade, em comparação à capital agitada e apressada que é São Paulo, e não teve tempo de fazer uma ligaçãozinha? Sim, ele é paulistano. Ah, e ele faz direito! Como descobri tudo isso? Depois de viajar num Boeing - cujo número do voo era 1599 - ao lado de um cada educado e com um papo bacana, dá para descobrir algumas coisas além da beleza daquele par de olhos verdes.
Sempre tento viajar sentada ao lado da janela, seja o meio de transporte que for! Nessa minha última viagem de São Paulo até a cidade que moro, não foi diferente. Janela na certa. O diferencial desse voo, porém, foi que tive o prazer de ter ao meu lado um jovem educado e carismático que tentou puxar assunto comigo desde que os avisos de segurança aos passageiros começaram. Mas eu sou um pouco marrenta... De princípio, não dei bola. Não dei bola, até viajar por aqueles olhos. "A janela deveria ser maior ", ele disse depois de eu abrir a janela ao meu lado, que estava fechada por causa do sol. Obrigada sol. "Também acho, até porque a graça de voar é poder admirar". E assim começou. Começou o que costumo chamar de "amor de um minuto" A diferença desse amor de 60 segundos para os outros que compuseram minha vida foi que, no final, eu dei a ele o meu número. E ele ainda não ligou.
Como a esperança é a última que morre, eu ainda estou esperando. Agoniada, espero que até o final desde texto ele dê um sinal de vida. Uma mensagem ou uma ligação, não importa, continuo no aguardo. E se ele não ligar? Bom, se ele não ligar, o jeito é chamar as amigas para sair no próximo sábado, afinal, sempre vai existir um homem pronto para suprir minha carência. Pode não ser um rapaz com um par de olhos verdes que, assim como eu, prefere viajar perto da janela e admirar a vista. Pode não ser um paulistano que faz direito. Pode não ser o cada que durante um voo me deu a dica de viajar durante a noite porque, segundo ele, "dá para ver todas as estrelas e parece que você está no espaço" .