domingo, 27 de dezembro de 2015

No ponto de ônibus

Ontem, no ponto de ônibus, ouvi uma conversa entre uma jovem de uns 16 anos e um senhor de quase 80 anos, penso eu. Sei que é feio ouvir conversas alheias, mas era impossível não escutar a prosa entre duas gerações distintas. E foi uma prosa bonita. Bem bonita. Foi algo mais ou menos assim:
- Olá...
- Oi.
- Posso me sentar aqui? - Disse o senhor ao apontar para o assento vago que estava ao lado da garota.
- Pode.
Ele pegou um cigarro e logo puxou assunto.
- Qual o seu nome?
A jovem, marrenta, não o respondeu e manteve os olhos fixos ao chão.
- Tudo bem?
- Você não deveria falar com estranhos. - Disse a garota sem paciência.
- Pois bem... Estava tentando te conhecer.
O senhor ficou olhando-a fixadamente até que ela resistiu e soltou a prosa:
- Isabela. Meu nome é Isabela.
- Paulo. - Ele disse satisfeito.
- O próximo ônibus chega as onze, daqui uma hora... O que faz aqui? - Ela perguntou, envergonhada por tê-lo ignorado.
- Estou pensando.
- Na vida?
- No amor. - Ele disse com a mão no peito.
- Ah... O amor... - A garota revirou os olhos e cruzou as pernas. - Dói, não é mesmo?
- O amor?
- É... Isso. - Ela disse com desprezo.
- Não. Não dói, não.
- Diz isso porque nunca deve ter tido um amor não-correspondido.
- E como tive... Bela. - Disse aos suspiros. - Desculpe-me, posso te chamar assim?
- Pode.
- Amor não é sinônimo de dor. Amor é...
- Inexplicável? - Ele falou com entusiasmo.
- Isso mesmo. Amor é tudo, menos dor.
- Mas dói...
- Então não é amor.
- É o que, então?
- Dor.
- Dor? Simples assim? Se não é amor, é dor? Dor? - Ela questionou indignada pela simplicidade da reposta do senhor.
- Bela, eu demorei quase 30 anos para entender que o amor é simples e que não dói. Acredita em mim. - Ele levantou, enquanto falava, para acenar para o ônibus que estava chegando. - A gente é que costuma complicar e machucar em nome do amor. O amor em si não dói.
- Falar é fácil. - A jovem falou com a cara amarrada, como quem não estava satisfeita.
O ônibus pára.
- Bela, desamarra essa cara. Coloca um sorrio nesse seu rosto bonito, que o próximo ônibus vem vindo. - Ele disse enquanto subia no coletivo e concluiu:
- Quem sabe você não encontra o amor no próximo ônibus?
Ela desfez a cara de marrenta, mas não soltou nenhum sorriso. E o senhor, paciente, alertou novamente:
- Lembre-se: se doer não é amor. É dor.
A jovem suspirou fundo. Até hoje não sei se foi de alívio pelo velho senhor ter ido embora ou se foi por, enfim, ter entendido que o amor é simples e que não dói.

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