sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Lata de sardinha

E o tempo passa. Passa mais ligeiro do que os ponteiros daquele relógio de pulso do seu avô, mais veloz do que o Cacá Bueno ou, até mesmo, do que o Ayrton Senna. A gente, porém, só nota essa velocidade do tempo quando já é tarde, quando o sol já se pôs, quando já é hora de dormir. Só quando os outdoors do centro da cidade estampam propagandas de natal é que a gente repara que nos esquecemos de muita coisa, como de ligar para aquela tia que mora no inteiror agradecendo a mensagem de aniversário que ela nos deixou no Facebook.

A gente se esquece de tanta coisa, de tantas pessoas... Às vezes, nos esquecemos para o bem, porque lembrar pode ser passagem para o voo da dor. E nesse avião ninguém quer embarcar. Mas, às vezes, nos esquecemos por descuido. A gente simplesmente se esquece. Se esquece de chorar, de rir, de gritar, de cantar, de amar... De viver. A culpa, contudo, não é nossa. Oras! Não há tempo sobrando.

Tempo: até parece o infinito apertado dentro de uma lata de sardinha em conserva. O muito no pouco ou o pouco no muito? Tanto faz. Tanto faz o tempo ser curto ou longo. Tanto faz, até o dia em que o "tempo" for vendido em cápsulas de rápida absorção. Por agora, temos que nos conformar com a latinha que recebemos e fazer do infinito que nos foi dado, o mais intenso possível. Sim, não temos todo tempo do mundo, porém, se serve de consolo, temos toda a sorte do universo. Sorte por ainda não ser tarde demais. O sol até se pôs, mas amanhã ele estará de volta. Ele estará de volta para nos lembrar que o tempo passa, quiçá, voa e para nos lembrar também que ainda dá tempo de despachar a nossa mala de esquecimento e embarcar no voo da recordação.

E, se a gente quiser, ainda dá para convencer o comandante de fazer uma rápida conexão em algum lugar para gritarmos o nosso amor por alguém. Não é uma questão de tempo, é uma questão de querer, de dar prioridade e de viver. Com uma lata de sardinha cheia de infinito dá para alimentar tanta coisa, tantas pessoas.

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