segunda-feira, 31 de agosto de 2015

DESARMEMO-NOS (pequena homenagem ao Eduardo morto, no começo de abril, por um policial)


"Não há nem nunca houve essa coisa chamada sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos”, assim Thatcher caracterizou a (des)organização social e devo concordar com tal afirmação. De fato, no sistema brasileiro, não existe uma sociedade, mas, sim, inúmeros indivíduos – ora amontoados em morros, ora aglomerados em centros urbanos. Indivíduos que, dependendo – exclusivamente – da sua cor e da sua condição financeira, recebem um tipo de tratamento. Um tipo de carro e um tipo de casa. Um tipo de atenção. Preciso, aqui, mencionar qual cor e qual conta bancária recebem mais atenção?
Creio que não, mas uma coisa precisa ser dita: Gilberto Freire foi infortunado ao afirmar que existe uma “democracia racial” no Brasil. Não, não existe. O que existe é o comodismo, o preconceito, a ignorância e a hipocrisia social que calam as vozes dos que ainda não foram ouvidos, que sufocam os que querem gritar e que causam calos nas cordas vocais dos que, por ventura, colocaram a boca no trombone. O que existe é um estupro cotidiano dos Direitos Humanos e a disseminação de um vírus tão mortal quanto o HIV: o descaso. Descaso que José Saramago tratou em seu romance “Ensaio sobre a cegueira” e metaforizou-o como “cegueira branca”. O homem cegou-se diante das carências sociais, da violência corriqueira, da corrupção cotidiana e do contraste urbano. Posto que muitos não reparam a realidade que os cercam, cabe a nós - nós que ainda nos espantamos diante de tamanha desordem social - a responsabilidade de ter os olhos quando os outros os perderam. A responsabilidade de ecoar os sussurros dos que, do morro, sofrem diante dessa “cegueira branca”.
Uma vez que o sistema brasileiro ainda possui marcas do passado colonial, como bem disse Caio Prado Jr, esperar-se-ia o que se tem hoje: uma “ditadura racial”. Preto é bandido, branco é doutor. Preto mora na favela, branco mora na casa grande de um condomínio fechado. Preto porta arma, branco porta celular. Um criança negra e pobre que mora no Complexo do Alemão, por exemplo, jamais portaria um celular, não é mesmo, senhor policial? Uma criança negra com um celular? Não, não. Preto porta arma. Em que Estado um Eduardo carregaria um celular no bolso? Num Estado em que, certamente, existe uma sociedade, talvez no Estado que Platão idealizou, mas não no Brasil. Aqui, o preconceito velado é tristemente escancarado nas mortes severinas, nos noticiários, nas ocupações de trabalho e nos diversos muros que ergueram-se hodiernamente. Aqui, a pobreza é sinônima de violência. Aqui, Eduardos não têm chance.
O que, por muitas vezes, não fica claro é que o pobre ou o negro não é bandido. O pobre e o negro não, necessariamente, praticam violência, mas, obrigatoriamente, eles sofrem violência, seja ela moral, física ou psicológica. Permitir que inúmeros indivíduos habitem morros, em “casas” sem saneamento básico e sem segurança, é um ato de violência, assim como desfavorecer um negro. É ultrajante, portanto, ver que, em pleno século XXI, nós precisamos discutir sobre o preconceito racial e a pobrefobia. A “cegueira branca” alastrou-se pelo Brasil e a “ditadura racial” marca o cotidiano do brasileiro, o que fazer, então? O que fazer? Atirar contra Eduardos, certamente, não é a solução para a desorganição social. Desarmemo-nos. Das armas, do comodismo, do preconceito, da ignorância e da hipocrisia social.

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