“Eu quero ser médica, quero salvar
vidas”. “Eu quero entregar jornal de porta em porta”. “Eu quero ser um
astronauta e viajar até saturno”. Com essas frases mirabolantes e um tanto
espontâneas, nós, quando crianças, queríamos brincar de planejar o futuro. Não
importava, de fato, se entregar jornal dava dinheiro ou se ser médico
requereria demasiado estudo: nós só queríamos ser. Ser.
Ser, quando não se é mais criança, é
um ato corajoso. Isso pode soar, mais uma vez, mirabolante, mas não é qualquer
individuo que tem a audácia de “ser”. Muitos – digo, muitos mesmo! – se escondem
atrás de padrões e de mesmices que a sociedade hodierna, duramente e
“midiamente”, estabeleceu. Muitos se escondem atrás do conformismo. Muitos se
escondem atrás do medo. Poucos são aquelas que assumem o seu “ser”. Eu sou quem
sou: gosto de usar meia colorida com chinela e não me importo se a Gisele usou
uma sandália de pedras maravilhosa no catálogo de alguma loja carérrima. Eu gosto
de humanas e não me importo se medicina e engenharia são cursos promissores. Eu
gosto de comer assinha de frango com as mãos e não me importo se isso vai de
encontro às regras de etiqueta.
De fato, “ser” quando criança era bem
mais fácil. Se comíamos a assinha com a mão, ninguém achava feio, afinal,
éramos crianças. Contudo, se já com 30 anos na cara usamos meia com chinelo,
somos tachados de “bregas” ou de “desleixados”.
Imagine então se com 18 anos decidimos fazer letras! Jogam-nos pedras!
“Letras? Mas você quer morrer de fome?”. Não, não. Eu não quero morrer de fome,
mas também não quero morrer de desgosto. Desgosto por nunca ter sido aquilo que
eu queria e por nunca ter feito o que eu sempre tive vontade.
“Ser” – repito – é uma ato corajoso.
Sejamos aquilo que vier à tona, aquilo que der vontade, aquilo que nos fizer
feliz. Simplesmente, sejamos.

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