Augusto Cury escreveu um livro, recentemente, sobre a ansiedade e caracterizou-a como o “mal do século”. Eu, como uma pessoa que sofre com o male que é a ansiedade, acredito que não é para tanto: a ansiedade não é o mal do século. Tem coisa muito pior que o meu roer de unhas antes de uma entrevista de emprego ou que a minha ânsia antes de um teste importante. Tem coisa muito pior que a ansiedade, a começar pelas 5 crianças que, neste minuto, morreram de fome em algum lugar do mundo.
Sim, sim. Pelo menos 5 crianças morrem de fome a cada minuto. E a morte delas, ninguém vela. O nome disso, meus caros, é conformismo. Augusto Cury que me perdoe, mas o mal do século chama-se conformismo, não ansiedade. O ser humano tem se conformado com o que não devia. Ele se conforma com a fome na África, com o trabalho análogo à escravidão na China e com a educação precária no Brasil. Ele se conforma com o inconformável.
A família hodierna, por exemplo, almoça na sala assistindo ao jornal e tem como aperitivos assassinatos e assaltos. Todavia, ninguém se espanta. O João, filho mais novo dessa família, teve o celular furtado semana passada e a solução para esse crime que deveria ser inadmissível foi comprar um celular novo, pois a vida segue. “Vida que segue”, diz Joana, a esposa e mãe, para uma amiga depois de revelar que não aguenta mais o seu marido. Mas ela não vai pedir o divórcio, porque ela já tem lá seus 40 anos e não quer enfrentar mudanças. O marido, por outro lado, não aguenta mais ser professor de matemática e sonha em abrir uma microempresa, contudo, ele não vai pedir demissão do colégio onde trabalha. Ele vai continuar como professor porque é mais fácil assim. É mais fácil aceitar a realidade do que mudá-la; é mais fácil se conformar.
Quantas famílias não são como essa? Quantas mulheres não querem, assim como a Joana, se separar de seus maridos? Quantos trabalhadores não sonham em ter seu próprio negócio? Quantas crianças africanas não dariam tudo por um pedaço de pão? Quantos animais já foram extintos para alimentar a famigerada indústria da moda? Quantas mães não choram no corpo de seus filhos assassinados? Quantos e quais terão que morrer para você se comover?
Está vendo? O conformismo cegou a humanidade. O conformismo é o mais perigoso assassino solto. O conformismo mata desde sonhos às pessoas. O conformismo enterra a felicidade sem direito a homenagens. Esse é o mal do século e a humanidade precisa ser, urgentemente, medicada.
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